(abaixo versão em português)

   

    Sao Paulo by a Thread

    With the project São Paulo por um fio [São Paulo by a thread], Cristiane Mohallem’s work reaches a potent state of restlessness, pregnant with new outgrowths, projects, and frictions. Amidst CCSP’s architecturally industrial tone—inspired by the designs of Eurico Prado Lopes and Luiz Telles, authors of the striking building inaugurated in 1982—the lines, the woven surfaces, the intensely chromatic pictorial and the images so artfully crafted by the artist not only exude the beauty of such works, but also establish a relevant connection with the site where they were exhibited and with strong characteristics of the city where she lives.

   This is because Mohallem, without leaving aside a productive arts-and-crafts-like mood (perhaps a result from her training at the prestigious School of the Art Institute of Chicago), now presents at Centro Cultural São Paulo this selection, an interesting perspective on some clear contradictions of the city where this venue was erected. With an intense circulation, permeable in its several entrances and with numerous routes to be covered by the active public including corridors, slabs, gardens and rooms, the building is still a product of the somewhat unbridled growth of São Paulo. Implemented on a steep terrain, the contemporary construction seems to glide over the hectic 23 de Maio Avenue, while also making room for the intense flows that come and go at the Vergueiro subway station and nearby hospitals, in a region that still has not halted its verticalization process. The source of the old Itororó Creek is located nearby, and until it flows into the Anhangabaú River, it runs its course like many other rivers in São Paulo: channeled, hidden, rectified, forgotten in subterranean memories of muddy courses.

    Thus, the severe cartography that is so peculiar to São Paulo could simply smash any idea of harmony originating from the obsessive practice of Mohallem, who increasingly explores a palette that mixes embroidery, painting, and drawing, varying in scales, colors, volumes, and in the relationship between the pieces’ foreground and background. The artist chooses to move across an intermediate and hybrid zone, in which persistent toil, especially one that attests to her skillful pictorial quality, is not irrelevant—even if brushes, paints, etc. are not present, but a praiseworthy resourcefulness in painting that contains attributes of other languages.

    At the same time, Mohallem creates images that synthesize the tense and everyday choosing between natural and built in a congested metropolis. Such works as Afluente do rio Tamanduateí [Tributary of the Tamanduateí River] make us doubt whether what we see is a veristic record of something that functions almost like an oasis today or if it is a projection of an urban grouping in which the human relations with the environment followed together the same paths. For an even more intense result, the artist renews her procedures and extracts from old maps the original course of the same river, full of turns and much more organic. Rio Tamanduateí [Tamanduateí River], made with cotton thread on linen, is simultaneously a proof of the failure of our modernity—if we consider a city that does not relate with its own water, in a way—and an abstraction in black and blue, small, beautiful, and simple.

    Other compositions, such as Quaresmeira, Ingá e Cambuci, are revealing of the author’s accurate technique and do not distance themselves from the ecological discourse (but dismissing literality) and from the links strongly embedded in the locus where the show is held and where Mohallem lives. After all, this myriad of native specimens has to contend for the sparse space available in São Paulo with “invading” species (and we must not fail to notice the beautiful etymology of indigenous words that name such trees).

 

    The intricate roots of Cambuci, for instance, refer to earlier moments in Mohallem’s production, including Flamboyant’s destabilizing crown in pure scarlet. “The color of a torch singer’s lips,” the American author Hillary Jordan wrote about the work. It is interesting to note that this tree is not native to Brazil, but was brought from Madagascar and thrived in this displacement precisely because of the vivid red of its canopies. Again, the relationship between natural and built, original and recreated (today perhaps “reenacted” is more precise), rooted and unstable, pictorial and graphic, chassis and relief, surface and line. In these interstices, the poetics of the São Paulo-based artist takes shape and lead us to drifts, images, and thoughts that bring us closer, without too many disruptions and abdicating flaunting elements, to our limits and finitudes.

Mario Gioia

art critic and curator

July, 2017

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    São Paulo por um Fio

 

Com São Paulo por um fio, a obra de Cristiane Mohallem chega a um potente estado de inquietude, povoado por novos desdobramentos, projetos e fricções. Em meio ao CCSP de arquitetura de tom industrial  - desenhado com inspiração nas pranchetas de Eurico Prado Lopes e Luiz Telles, autores do marcante edifício inaugurado em 1982 -, as linhas, as superfícies tecidas, o pictórico de intenso cromatismo e as imagens tão habilmente criados pela artista não exalam somente a beleza de tais trabalhos, mas também uma relevante conexão com o sítio onde foram exibidos e com fortes características da cidade onde vive.

    Pois Cristiane, sem deixar de lado um produtivo ar de arts & crafts (talvez derivado da sua formação na prestigiada School of Art Institute of Chicago), agora apresenta neste recorte exibido no Centro Cultural São Paulo uma interessante perspectiva sobre algumas evidentes contradições da urbe onde tal espaço foi erigido. De intensa circulação, permeável em várias entradas e com rotas inúmeras a serem percorridas pelo público ativo entre corredores, lajes, jardins e salas, o prédio não deixa de ser um produto do crescimento algo desenfreado de São Paulo. Implementado num terreno íngreme, a construção contemporânea parece planar sobre a frenética avenida 23 de Maio, sem deixar de abrir espaço aos fluxos intensos que saem e chegam do metrô Vergueiro e de hospitais próximos, em cercanias que ainda não cessaram de verticalizar. O antigo Ribeirão do Itororó nasce perto e até desaguar no Anhangabaú transcorre seu atual curso como muitos de seus similares em SP: canalizado, oculto, retificado, esquecido em memórias subterrâneas e de transcorrer turvado.

    Assim, a cartografia severa da paulistanidade poderia bater de frente com alguma harmonia originária do obsessivo fazer de Cristiane, que cada vez explora mais uma paleta que mescla o bordado, a pintura e o desenho, variando nas escalas, nas cores, nos volumes e no jogo entre figura e fundo das peças. A artista opta por transitar numa zona intermediária e híbrida, em que não é irrelevante a labuta persistente, especialmente a que atesta a exímia qualidade pictórica  - mesmo que pincéis, tintas etc não estejam presentes, e sim uma desenvoltura elogiável pela pintura que engloba atributos de outras linguagens.

    Ao mesmo tempo, Cristiane cria imagens que sintetizam o tenso e cotidiano lidar entre o natural e o construído numa metrópole em congestão. Obras como Afluente do rio Tamanduateí nos fazem duvidar se o que vemos é um registro verista de algo que funciona quase como um oásis atualmente ou se seria uma projeção de um agrupamento urbano no qual as relações humanas com o meio ambiente seguissem conjuntamente nas mesmas veredas. Num sentido ainda mais destacado, a artista renova seus procedimentos e extrai de mapas antigos como era o curso original do mesmo rio, cheio de curvas e de trajeto muito mais orgânico. Rio Tamanduateí, feito com linha de algodão sobre linho, é, simultaneamente, uma prova do fracasso da nossa modernidade – se pensarmos numa cidade que não se relaciona com a própria água, de um certo modo – e uma abstração em preto e azul, pequena, bela e simples.

    Outras composições, como Quaresmeira, Ingá e Cambuci, são reveladoras da técnica apurada da autora e não se distanciam do discurso ecológico (mas que dispensa o literal) e dos elos fortemente encravados no lócus onde se passa a mostra e onde Cristiane vive. Afinal, essa infinidade de exemplares nativos tem de disputar o ralo espaço disponível em SP com espécies ‘invasoras’ (e não deixemos de notar a bonita etimologia de vocábulos indígenas que nomeiam tais árvores).

    As intrincadas raízes de Cambuci, por exemplo, remetem a momentos anteriores da produção de Cristiane, entre os quais a copa desestabilizadora em puro escarlate de Flamboyant. “The color of a torch singer’s lips or a rooster’s wattle/ Fecund, inflamed, unashamed” 1, escreve a literata norte-americana Hillary Jordan sobre a obra. É interessante perceber que tal árvore não é nativa daqui, tendo sido importada de Madagascar e justamente exitosa nesse deslocamento por conta do vermelho tão vivo de suas copas. Novamente o jogo entre natural e construído, original e recriado (hoje talvez ‘reencenado’ seja mais preciso), enraizado e movediço, pictórico e gráfico, chassi e relevo, superfície e linha. Nesses interstícios, a poética da artista paulistana vai ganhando corpo e nos leva a derivas, imagens e pensamentos que nos aproximam, sem tantos rasgos e abdicando do ostensivo, de nossos limites e finitudes.

   Mario Gioia, setembro de 2017

  1. “A cor  dos lábios candentes de um cantor ou da crista do galo/ Fecundo, inflamado, sem vergonha”, tradução de Cristiane Mohallem. Disponível em http://scoundreltime.com/flamboyan/, consultado on-line em setembro de 2017.