Abaixo texto em português

I decided to write some lines of things I learned and grasped by reading about and observing stones. 

there, a stone is not learned: there, a stone, a birthstone, entrails the soul                    

João Cabral de Melo Neto                    

       

The technical development of stone tools and weapons delineate the Stone Age.

It is almost certain that the menhirs were linked to the cult of fertility in the late Neolithic period.

From the primordial chaos, the still water and the rising of the sun appeared the Benben primeval mound, which is known as the top of the pyramid stone, where heaven and earth merge.

Stone buildings house the living and the dead.

The stone that keeps the dead distant from the living.

Mithra, the Persian god of the sun, was born from a rock.

Deucalion, Pirra’s wife and Prometeu’s son, realized that the stones are the bones of the Earth.

The stone that fell from the sky.

Muslins turn to the black stone of Kaaba, in Mecca, to their daily prayers.

A stone can symbolize a God or be a place of worship.

Alchemists seek for the philosophical stone.

A city made by stones.

A stonewall.

The gemstone of the ring.

The Japanese Zen rock garden.

The woman who meditates setting on her stone.

Michelangelo’s hands working the marble.

The round stone of Carl Gustave G.Jung’s dream predicting his death.

C. Drummond de Andrade saw a stone in the middle of the way.

Someone gave a stone to Paul Celan.

Adonis, the poet, is sculpting his life on the rock of light.

 

Two years ago, on an early afternoon of a sunny day, on an island, I saw the stone of the sea, bathed by salt water. Since I had arrived on the island by swimming, I didn't have my cell phone or a camera with me to record it. What colors, what beauty! There was an ultramarine blue that I had never seen before; a blue coming from the sky and the green of the forest, which was on the wet part of the stone; a blue that intertwined with the roses, ochres, earth-tones, greens, golds and silvers of the stone. So I stayed there, taking my time, to guard it in me.

 

The stone of the sea is the stone in the middle of my way, the stone that penetrated my soul.

Cristiane,

May, 2020

*  The world “there" from Melo Alves’s poem refers to the Brazilian backwoods (sertão)

** Celan was a Romanian poet; Drummond and Cabral de Melo Neto were Brazilian poets; and, Adonis is a Syrian poet.

____________________________________________________________________________________________________________________________

Resolvi escrever algumas linhas de coisas que aprendi e compreendi lendo sobre e observando pedras.

lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma.             

João Cabral de Melo Neto             

O avanço técnico das ferramentas e armas de pedra desenha a Idade da Pedra.

É quase certo que os menires estavam vinculados ao culto da fertilidade no período tardio do Neolítico.

Do caos primordial, da água parada e do raio de sol da alvorada surgiu o monte primevo Benben, também reconhecido como a pedra do topo da pirâmide, lugar da união entre o céu e a terra.

Estruturas de pedras abrigam os vivos e os mortos.

A pedra que mantém o morto distante do mundo dos vivos.

Mitra, o deus persa solar, nasceu de uma rocha.

Deucalião, marido de Pirra e filho de Prometeu, concluiu que as pedras são os ossos da terra.

A pedra que caiu do céu.

A pedra negra da Caaba em Meca, para onde voltam-se os muçulmanos em suas preces diárias.

Uma pedra pode simbolizar um deus ou tornar-se um lugar de culto.

Os alquimistas procuram pela pedra filosofal.

A cidade de pedra.

A muralha de pedra.

A pedra preciosa do anel.

O jardim de pedras zen japonês.

A mulher que medita sentada em sua pedra.

As mãos de Michelângelo trabalhando o mármore.

A pedra redonda do sonho de Carl Gustave Jung prenunciando a sua morte.

Carlos Drummond de Andrade viu a pedra no meio do caminho.

A pedra que alguém deu para Paul Celan.

O poeta Adonis esculpindo sua vida sobre a pedra de luz.

 

Há dois anos, no inicio de uma tarde ensolarada, em uma ilha, vi a pedra do mar, banhada pelas águas salgadas.  Como chegara à ilha a nado, não tinha comigo o celular ou uma máquina fotográfica para registrá-la. Que cores, que beleza! Havia nela um azul ultramar que eu nunca tinha visto antes; um azul vindo do céu e do verde da mata, que estava na parte molhada da pedra; um azul que se entrelaçava com os rosas, ocres, terras, verdes, ouros e pratas da pedra. Então, fiquei ali,  demorando, para guardá-la em mim.

A pedra do mar é a pedra do meio do meu caminho, a pedra que entranhou a minha alma.

Cristiane Mohallem

maio de 2020

* se refere ao sertão, a pedra do sertão do poema "A educação pela pedra" de João Cabral de Melo Neto.